Inferno de Dante ou cenário para uma maçã
Este projeto parte de uma apropriação crítica da gravura de Gustave Doré sobre A Divina Comédia de Dante Alighieri, mais especificamente da representação do Inferno, como eixo de investigação estética e conceptual. Através de uma série de pinturas e desenhos, Carlos Amado reconfigura visualmente esse imaginário medieval para refletir as tensões políticas, sociais e espirituais do presente.
O projeto artístico não se limita à citação iconográfica: há uma transposição simbólica e crítica da paisagem dantesca como metáfora do colapso contemporâneo — marcado pela fragmentação social, crescimento do maniqueísmo, polarizações ideológicas e instrumentalização da fé no campo político. Assim como Dante denuncia a corrupção do clero e a decadência ética de sua época, o artista evoca a mesma urgência de revisão moral e estrutural, atualizando o inferno como dispositivo discursivo.
Esta série pode ser compreendida, portanto, como uma cartografia simbólica da queda — não apenas no sentido teológico, mas como representação do esgotamento das promessas modernas - uma crítica feroz aos mecanismos de exclusão, à banalização do mal e à falência de modelos éticos coletivos.
